O que está acontecendo com nossa sociedade? o que nos faz hoje sentir graça de algo completamente discutível excretado como se fosse uma piada? uma nova classe de "humor" vem crescendo à todo vapor, não me refiro só ao Rafinha Bastos dizendo que treparia com mães e bebês, se existe repúdio à esse episódio, pode ser atribuído tão somente ao furor midiático levantado em razão da audiência, sem ele o fato não seria sequer notado pela maioria. Já vi o CQC fazer piadas piores em outras ocasiões sem ser incomodado, e isso não é uma singularidade da programação da Band.
O humor, sempre foi o refluxo de nosso momento social, como ferramenta de crítica política tínhamos o "Viajando Enrique Cardoso" e o "Lula" de Casseta e Planeta interpretado pelo saudoso Bussunda, os textos engraçados interlaçavam fatos quentes com dialética inteligente e de bom gosto.
Diferente do humor non sense, ao melhor estilo Monty Pyton, com grandes personagens de Regina Cazé, Luiz Fernando Guimarães entre outros fãs do estilo cênico Inglês, vemos a substituição do "non sense" que caiu no gosto dos brasileiros por décadas, para o estilo, permitam-me inventar: "agressão-via-gritaria-vale-tudo-sem-respeito".
Parece que existe uma linha imaginária do que é suportável pela audiência, e cada vez que um proclamado comediante empurra essa linha para baixo, ele é chamado de ousado, inovador e corajoso: logo a linha baixa e o que antes erra inadmissível torna-se normal, engraçado e artificio de comédia, grau à grau a linha continua baixando.
Caracterizo o pensamento no vídeo abaixo:
A subversão moral e social chegou à tal ponto, que pessoas acham graça - até chamam de humor - vídeos como esse; quiçá até comparam à crítica política. Me preocupa a reação de quem goza de uma infeliz sequencia de falta de respeito ao espectador. Não deveria existir graça em ver pessoas ofendidas uma vez atrás da outra durante todo o vídeo.
É completamente ausente do consciente de uma maioria, que os personagens retratados na suposta comédia do vídeo a cima não são personagens fictícios, são de fato pessoas reais, nominalmente citadas, facilmente posicionadas (não confundam como uma defesa à A ou B, podia ser o Bush no vídeo aqui usado como exemplo). O fato é que pessoas reais são tratadas sem nenhum respeito, de maneira repreensível somente para ter audiência e extrair alguns risos (sic).
Recentemente o filme "A Serbian Film" - proibido em vários países - mostrou um roteiro que critica justamente a deturpação dos limites sociais, no filme - quase impossível de ser assistido até o final -, um cineasta contrata um ator pornô, para romper os limites da pornografia em nome da arte, o ator é obrigado sob efeito de drogas à fazer necrofilia (sexo com mortos) pedofilia (sexo com crianças) e assistir ao estupro de um bebê, que ele chama de "new born porn" (pornô recém nascido). A crítica do filme se baseia em "onde vamos parar?" a mensagem é óbvia quando no final, o cineasta é morto, e outros novos cineastas assumem seu lugar no novo estilo "pornô arte" recém criado.
Estamos caminhando para uma sociedade sem limites; sem respeito? O Brasil, tido como exemplo de reciprocidade e bom convívio está assim tão desumano à ponto de não reconhecer outro como pessoa?
Quem entra em alvoroço ao saber do câncer de uma pessoa e deseja morte; quem nutriu esse sentimento de ódio na sociedade; de onde vem esse exemplo?
Se em breve uma atrocidade, como a vista no take da "Menina atropelada diversas vezes e não socorrida em uma rua movimentada da China" for filmada em uma metrópole made in brazil, não ficarei surpreso de forma alguma: nossa sociedade em grande parte está desprovida do mínimo nível de razoabilidade e humanidade já a algum tempo.
