Por: Zuenir Ventura
O Globo - 23/07/2011
Para quem acha que protestar não adianta, há um pequeno exemplo contrário que acaba de vir de Nova Friburgo. Depois que os repórteres Antonio Werneck e Waleska Borges mostraram que mais de dez inquéritos tinham sido instaurados na cidade para apurar várias irregularidades no uso dos R$10 milhões de verbas federais recebidas, o prefeito e seis secretários, em entrevista coletiva, tentaram desmentir as denúncias "maldosas e equivocadas" que eles atribuíam não ao Ministério Público, mas ao GLOBO. Um secretário chegou a afirmar que "nenhum recurso de reconstrução chegou ao município".
A resposta foi dada no dia seguinte pela indignação de "centenas de friburguenses que saíram às ruas para protestar", como noticiou o jornal "A Voz da Serra". O resultado é que no dia seguinte foi aprovada na Câmara de Vereadores a CPI que vinha sendo protelada há três meses "para investigar a utilização dos R$10 milhões repassados ao município para serviços de limpeza" - justamente aqueles que as autoridades negavam ter recebido e malversado. Em seguida, a Polícia Federal fez uma devassa em documentos da Prefeitura. Fiquei orgulhoso da cidade que embalou minha adolescência.
Reclama-se que só evangélicos, gays e adeptos da maconha fazem passeatas, numa espécie de protestos, digamos, a favor. Por que não uma contra a corrupção? Já me contentaria com uma faixa em cada uma das manifestações: "A favor de Jesus e contra a roubalheira"; "A favor da maconha e contra a corrupção"; "A favor dos gays e contra os ladrões do dinheiro público".Houve um tempo em que uma onda de corrupção muito menor foi chamada de "mar de lama" e terminou em tragédia. Agora, um "oceano de lama" está mais para pastelão, sem direito sequer a uma simbólica torta de espuma, como a destinada a Rupert Murdoch em Londres."
